O campo não era o Maracanã mas cada partida era como se fosse um dia de decisão.
Passavam carros dos dois lados mas para nós era o barulho de uma imensa torcida. Não tinha nem traves nem marcação, mas parecia ser o campo mais verde e bonito do mundo.
Os times não tinham uniforme, o mais comum era um lado sem camisa e outro com. A escalação e os times sempre decididos na hora. A turma que se reunia ali naqueles trechos de gramado verde era formada por garotos de todas as idades e classes sociais. Alguns descalços, outros de chuteira, mas todos dividindo e multiplicando a paixão de jogar bola. Ninguém era excluído, no máximo tinha que esperar a próxima partida.
Naquela época, tínhamos sido tricampeões de futebol (1970) alguns anos atrás e não tínhamos a concorrência de eletrônicos, computadores e atrações diversas.
A vontade e a garra de lutar por cada lance ou disputa comprovavam nossa paixão pelo esporte. Nem tínhamos juiz mas conseguíamos nos entender na marcação de faltas ou lances duvidosos.
Alguns eram da minha rua e conhecidos, mas muitos eram desconhecidos, que chegavam e participavam das partidas. Algumas placas nos proibiam de jogar futebol e às vezes fiscais ou polícia nos interrompiam. Mas a fome de bola era tanta que mudávamos de lugar ou esperávamos um pouco para começar tudo de novo.
Torcíamos tensos quando a bola escapava para a pista de carros. E ás vezes ônibus e carros freiavam para não passar por cima e vibrávamos quando ela conseguia escapar dos atropelamentos.
Chegava em casa sempre morto de cansaço e sede. Nas férias fazíamos isso quase todos os dias. E no dia seguinte tudo recomeçava, com sol ou chuva.
Estes tempos ficam mais fortes na memória pela lembrança do que era uma convivência pacífica. Sim, havia brigas e desentendimentos, mas de forma geral tudo se resolvia muito bem.
As coisas pareciam mais simples e todos mais próximos, ninguém pré-julgava alguém pela roupa, aparência, jeito ou idade. Alguém valia mais pela sua habilidade em dribles e chutes.
O interesse comum era apenas jogar bola, na sua mais livre e expressiva forma. Juntos todos estes garotos faziam parte do mesmo time na busca de emoções, diversão e a amizade, e todos ganhavam de alguma forma. Não dá para esquecer momentos como estes.
A memória nos ensina muitas coisas, e através dela conseguimos recriar e reviver momentos emocionantes da nossa vida. Isso às vezes até pode virar base ou faísca para uma ficção. E foi isso que fiz um pouco com a minha memória destes campos de futebol no aterro do Flamengo, no Rio.
Transformei parte deles em um livro infanto-juvenil que foi publicado pela Editora Vozes em 1990, e que agora está disponível — gratuitamente — no formato digital Kindle (Amazon) e Ibook (Apple).
Conto a história de um garoto apaixonado por futebol que cai em uma floresta cheio de bichos dentro de uma enciclopédia tentando descobrir o que é o Bicho-Bola. É um jogo em um campo diferente mas onde ele tem que usar de todas a habilidades para chegar na área e marcar seu gol.
O texto é meu e as ilustrações são de minha irmã, Raquel de Assis Tostes. Está ali um pouco desta emoção e aventura que buscamos nas brincadeiras de criança e às vezes na vida real. E quis escrever este texto como uma homenagem aos amigos e colegas que estiveram lá, e tantos outros, desconhecidos, que dividiram essas inesquecíveis emoções futebolísticas.
Aos interessados em baixar gratuitamente o livro infantojuvenil “atrás do Bicho-Bola — seguem os links:
@robertotostes

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